terça-feira, 20 de outubro de 2020

"A espinha dorsal da noite"












Encontrei, por acaso, um livro no chão, ainda molhado pela chuva. Levei-o comigo para casa e comecei a lê-lo.

Na primeira página estava a seguinte citação:

«Os aborígenes Kung do deserto de Kalahari, em Botswana, possuem uma explicação para a Via Láctea, que na sua latitude está sempre acima deles. Chamam-na “a espinha dorsal da noite”, como se o céu fosse um grande animal dentro do qual vivêssemos. A explicação deles torna a Via Láctea tanto útil quanto compreensível. Os Kung acreditavam que a Via Láctea sustenta a noite, que se não fosse por ela, fragmentos de escuridão se despedaçariam aos nossos pés. É uma ideia elegante.» Carl Sagan, Cosmos

A observação do céu sempre inquietou o Homem, primeiro por uma questão de sobrevivência, visto que a interpretação dos signos da natureza era uma questão de vida ou de morte, e mais tarde, pela tentação de encontrar respostas às questões da origem do mundo, dos elementos e dos fenômenos.

Este procura de significado na realidade visível, levou o ser "construtor" - o Homem, ao mito. Ou melhor, aos vários mitos. Estes são possíveis explicações ou interpretações da realidade e dos acontecimentos, que recorrem frequentemente ao sobrenatural e ao fantástico. Passados de geração em geração, geralmente através da oralidade.

Estes mitos são diferentes conforme as culturas e estão intimamente ligados às várias religiões. Podemos considerar a Religião como um conjunto de sistemas culturais e de crenças, que estabelece os símbolos que relacionam a humanidade com a espiritualidade e seus próprios valores morais, esta palavra é muitas vezes usada como sinônimo de fé ou sistema de crença, mas a religião difere da crença privada na medida em que tem um aspeto público e organizado.

Assim, quando pensamos em religião referimo-nos a fé num ou mais Deuses ou uma prática ritual ou a filiação num grupo religioso. Contudo, penso que, mesmo que não nos consideremos religiosos, vamos ter sempre um conjunto de ideias ou crenças, explícitas ou implícitas, quanto à natureza essencial do mundo.

Talvez achemos o Universo caótico e sem significado, portanto só tem sentido aproveitarmos todos os pequenos prazeres que podemos e quando podemos?! Ou este é um de lugar de acolhimento em que acontece sempre qualquer coisa boa e em que não nos temos de preocupar com o futuro?! Ou um Universo de leis rígidas em que seremos marginalizados se pisarmos a linha?!

Se considerarmos que não temos uma visão do mundo, ou se não a conseguirmos reconhecer, ou ainda, se não formos adaptando o nosso entendimento do mesmo às novas aprendizagens, é possível que nos debata
mos sempre com as mesmas questões e que o nosso desenvolvimento pessoal fique aquém do seu potencial.

Sabem que “mitos” ou narrativas orientam a vossa vida? O vosso mundo é protegido por um “grande animal”? Ou esse animal não simpatiza muito convosco? Ou somos todos esse animal?