terça-feira, 20 de outubro de 2020

Máscara


                                                        img. 1- ilustração de Liana Finck 

Admito que inicialmente tinha escolhido escrever sobre comunicação em público mas não consegui resistir a apagar tudo e começar de novo. E porquê? Porque a palavra máscara ficou a tilintar no meu ouvido o dia todo, e dei por mim a dar-lhe muita atenção e tempo mental, sem dúvida mais que o tema anterior.

Se formos pesquisar no dicionário o significado da palavra máscara, encontramos várias opções de escolha. Mas em síntese é algo que, geralmente, nos cobre o rosto, total ou parte dele, com algum objetivo, ou então está relacionado com uma fachada falsa, ou disfarce.

Porque é que chamamos máscara ao objeto que atualmente utilizamos diariamente? E será que este nome tem alguma relação com a ideia de disfarce? De facto, o rosto é a parte do nosso corpo que mais carrega a nossa identidade, mais facilmente identificamos alguém se olharmos para a sua cara do que se olharmos para o seu pé, o seu braço ou mesmo a sua nuca, e, por isso, faz sentido tendo em conta que a máscara cirúrgica nos esconde a maior parte do rosto e, consequentemente, parte da nossa identidade e nos mascara.

Uma amiga minha fez recentemente uma observação interessante, nos tempos que correm vermos a boca e o nariz de alguém tornou-se em algo íntimo. E é verdade, apenas destapamos essa parte da face quando nos sentimos à vontade e seguros para tal e naturalmente mantemos a máscara perto de indivíduos que nos são totalmente desconhecidas.

E os olhos? Antes das máscaras, acontecia-me estar a falar com alguém e não saber muito bem se devia olhar para a boca ou para os olhos da pessoa, por mais idiota que isto possa parecer. Hoje em dia deixei de ter esse problema, somos forçados a olhar para os olhos, e isto é um exercício interessante e não é nada fácil, mostramos muito mais vulnerabilidade se olharmos para os olhos de uma pessoa e vice versa. Dando mais atenção aos olhos das pessoas, reparamos com mais atenção nas diferentes mensagens que os olhos podem dar, conseguimos perceber se as pessoas estão tristes ou se estão a sorrir e tenho reparado que tende a ser uma expressão muito honesta e pouco arbitrária. A expressividade dos olhos mostra de forma mais verdadeira as emoções das pessoas e a não ser que elas tenham completa consciência e controlo sobre eles não existe grande arbitrariedade na comunicação dos mesmos.

Outro ponto que me ocupou a cabeça foi o facto da utilização de máscara ser algo obrigatório e igual para todos, pelo menos na maior parte da Europa, não importa o sexo, a idade, a posição hierarquica, ou etnia todos utilizam este novo “adereço”. Todos utilizamos máscara porque a doença não escolhe etnia, não escolhe sexo ou importância política. E isto é interessante pensar, um pouco como as meias, mas a grande diferença é a sua obrigatoriedade, se uma pessoa decidir não usar meias provavelmente ninguém reparará e o mesmo não acontece com as máscaras, ninguém tem vantagem ou carta branca.

Este é um tema que nos acompanha hoje, talvez amanhã nenhuma destas reflexões tenha o mesmo peso mas enquanto vivemos este momento e ele nos fizer pensar aproveitemos para o fazer.