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sábado, 19 de dezembro de 2020

Sexualidade, poder e género

   


Num dos seus mais recentes textos, Foucault diz que o sujeito foi sempre o tema mais abrangente de toda a sua pesquisa e de todo o seu estudo. Em “O Sujeito e o Poder” (FOUCAULT, 1995), declara que o seu objetivo era criar uma narrativa que expressasse as diferentes formas como o ser humano foi-se tornando sujeito na cultura. Dessa forma, ofereceu três formas de objetivação:


1. Um modo onde está presente um regime de discurso, que captura o sujeito em modos de investigação — onde o mesmo se torna alvo da ciência, economia ou mesmo da história natural.


2. Um modo que está relacionado a práticas divisoras, onde o sujeito é dividido no seu interior em relação aos outros, e como essas práticas o objetivam e dividem (como louco ou são, doente ou sadio. Este modo leva a um terceiro —


3. Para usar as formas de resistência contra as diferentes formas de poder. Seria como reconhecer o campo de forças que forma, por exemplo, determinado dispositivo na sociedade.


Por um dispositivo contar com inúmeras forças mutáveis e instáveis e pela sua confrontação ser inevitavelmente tensa, devido aos efeitos de resistência que ela cria, torna incerta a estabilidade de um dispositivo e produz a necessidade de rearticulações constantes na sua configuração gerando assim fissuras no estados de dominação que tal dispositivo gera (Weinmann, 2006). Podemos afirmar que esta nova perspetiva de Foucault é representada na mudança do foco da análise da sexualidade trazido pelo mesmo em “A vontade se saber” para um estudo e pesquisa de uma relação com o próprio, mediantes as quais os sujeitos modernos constroem a experiência de si próprios como sujeitos de sexualidade. Esse sujeito submerso no poder que busca capturá-lo procura encontrar um escape que só pode ser encontrado dentro desse mesmo poder. 


A sociedade é formada por espaços variados onde as relações podem ser disciplinares, formalistas, normalizadoras e de controlo. Na entrevista A ética do cuidado de si como prática de liberdade de Foucalt (2010:267)  diz que a libertação abre um campo para novas relações de poder que devem ser controladas por práticas de liberdade. Estabelecem-se assim relações de poder que resultam em formas de resistência. No caso, o poder não pode ser entendido como negativo bem como a resistência como uma tentativa de libertação ao poder. Não é certo nem linear que seja contra o poder que começam as lutas mas sim contra algum efeito produzido por esse mesmo poder e contra algum estado de dominação provocado por ele. Dessa forma, só existe poder porque existe resistência a ele. De outra forma seria apenas uma questão de obediência. 


Porem não é um caso de causa/efeito: Esta resistência de que falo não é uma substância. Ela não é anterior ao poder que ela enfrenta. Ela é coextensiva a ele e absolutamente contemporânea”(Foucault, 1979: 241)

Com efeito, o acto de exercer poder sobre, só é possível a partir de um jogo de provocação em que ambas as partes (poder/resistência) contribuem.

    

Alterar a verdade do sexo ou da sexualidade é uma política de existência que leva a uma quebra na naturalização do género e nas dualidades e binarismos que sustentam práticas divisórias determinando espaços e maneiras de ser específicas na formação de subjetividades. A abstenção da causalidade do sexo, da sexualidade e do desenvolvimento psicossexual possibilita a criação de outras formas de agir e pensar, que constroem resistência perante processos de medicalização da conduta das mulheres, das crianças e dos prazeres em geral.


Com as contribuições de Foucalt no tema da sexualidade tornou-se possível discutir  este tema de uma forma mais rica e abrangente e inúmeras possibilidades ficaram nas mãos dos que se interessam por estas questões. Desde o dispositivo de sexualidade até à sua discussão sobre a constituição do sujeito enquanto prática de cuidado de si torna a obra deste autor uma referência para aqueles que querem e se propõe a pensar a sexualidade fora dos padrões normativos que ainda marcam o pensamento e as práticas contemporâneas de análise a nível do género e da sexualidade. No que diz respeito ao dispositivo da sexualidade na constituição dos modos de existência, em especial, por meio dos atravessamentos de género e sexualidade, é possível afirmar,  como Foucault (1995: 10) que Talvez, o objetivo hoje em dia não seja descobrir o que somos, mas recusar o que somos. Temos que imaginar e construir o que poderíamos ser para nos livrarmos deste “duplo constrangimento” político, que é a simultânea individualização e totalização própria às estruturas do poder moderno.




FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poder. In: Dreyfus, H. L. &Rabinow, P. Michel Foucault: uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica,1995.


FOUCAULT, Michel.História da sexualidade. Vol. I: A vontade de saber.


WEINMANN, A.Dispositivo: um solo para a subjetividade. In: Psicologia & Sociedade.


segunda-feira, 12 de outubro de 2020

A menstruação e cultura visual (8388)

Ainda hoje, em muitos países, as mulheres são segregadas por estarem menstruadas. Nos anúncios de absorventes menstruais a realidade nunca é representada, e o sangue deste ciclo natural feminino (e tão importante) é ainda tabu. Ainda que sejamos bombardeados com sangue, na televisão, nas redes sociais, e até no dia-a-dia citadino à conta da violência, ainda nos retraímos ao ver este sangue natural exposto. A verdade é que podemos ver e sentir o corpo feminino de uma forma bem mais acolhedora e digna se nos lembrarmos que ancestralmente o ciclo menstrual era dado como uma ferramenta divina e poderosa, que permitia limpeza do corpo e da alma e autoconhecimento. Durante muito tempo foram as mulheres a liderar as tribos porque tinham útero - não porque podiam gerar filhos, mas porque o ciclo menstrual é uma espécie de bússola comportamental. As mulheres que se conectavam com o seu ciclo, com o seu corpo e com a natureza tornavam-se mais intuitivas e mais sábias. Nos dias da menstruação eram feitos preparativos especiais para garantir o conforto da mulher. 


Se o título deste artigo que escrevo é “A menstruação e cultura visual” ele tem tudo a ver com as construções culturais que a sociedade ocidental estabeleceu, ao longo dos séculos, sobre as noções de género e sexualidade, e que são manifestadas mais especificamente através de imagens publicitárias de absorventes menstruais e analgésicos que se propõem a aliviar as dores advindas das cólicas menstruais. São, a meu ver, a principal forma de exposição pública do tema – embora de forma muito restrita e contida. Ao integrar uma educação cultural de tal forma inibitória - em que os próprios pais, o Estado, a Igreja, a Escola, os media, entre outros, abordam este assunto de caracter biológico como sendo um “tabu” e algo que deve ser escondido - a mulher vê-se encapsulada num conjunto de regras a fim de controlar o próprio corpo e a forma como explora a sua sexualidade. 


Quando se fala em menstruação, é comum as pessoas terem uma noção simplista sobre o assunto, de tal modo a encará-la como mais uma evento natural do corpo feminino. De facto, poderia assim sê-lo. Porém, na mesma intensidade em que o fenómeno biológico é visto de forma natural, as construções culturais, que aqui denomino na maior parte das vezes como “tabus”, foram normalizadas ao ponto de os sujeitos vivenciarem os discursos oficiais acerca da temática como algo natural. 


Tudo começa com a menarca. Além da definição proposta pelo dicionário, também é possível relacionar o significado de menarca com a origem de uma data de sentidos construídos em volta do corpo de uma mulher. Não me refiro apenas à premissa de que com a primeira menstruação a possibilidade de gerar um filho é concretizada. Uma série de tabus foi construída e estabelecida como verdade e a associação da menstruação com sentidos negativos repercutem, até hoje, na imagem que homens e mulheres têm acerca tanto desse acontecimento quanto do comportamento do sujeito feminino de modo geral.



A marca de absorvente Intimus publicou o anúncio representado acima (figura 1) através da Revista Atrevida, cujo público-alvo eram mulheres e adolescentes, em julho de 1995. O tom publicitário utilizado ao longo do texto, que ocupou uma página inteira, deixa evidente a necessidade de haver uma boa escolha, da parte da mulher, relativamente aos absorventes, de forma a que possa garantir a segurança e confiança. Este facto fica percetível em excertos como “... eles passaram a ser finos, confortáveis e ainda mais seguros...” e “são as suas exclusivas barreiras laterais que dão mais segurança contra os vazamentos, até nos dias de maior fluxo” para caracterizar as qualidades atribuídas aos absorventes da marca em questão. Em relação a quem e ao que é que mulher precisa de se sentir segura durante o seu período menstrual? O absorvente vai protegê-la de que ameaça? Seria contra o sangue? Afinal, é exatamente o fluído da menstruação que carrega o sinal de vergonha.



A artista, desenhista de comics e cientista política Liv Strömquist (2018), na sua obra “A Origem do Mundo – Uma História Cultural da Vagina ou A Vulva VS. O Patriarcado”, faz uma comparação directa do sangue menstrual com o vinho tinto. Se há a eventual situação em que alguém entorna vinho no sofá, não é comum descrevê-la como “insegura” ou “desprotegida”. No entanto, se é o sangue proveniente da menstruação que mancha o mesmo local, a situação já não é vista de modo natural (ainda que o ciclo menstrual seja algo completamente vinculado ao biológico e à natureza do corpo feminino). Nesse sentido, Strömquist, ao mesmo tempo em que aborda a questão menstrual, faz uma breve alusão ao facto do trabalho doméstico ser vinculado à imagem da mulher ao dizer às leitoras que “[...] o medo que você tem quando está menstruada não tem a ver com a realização obrigatória das tarefas domésticas não renumeradas, como a limpeza de tecidos, mas tem a ver com a revelação de que você está realmente menstruada” (STRÖMQUIST, 2018, p. 101).



Para compreender melhor as questões de género e sexualidade sobre a perspetiva dos “ensinamentos” culturais, é viável analisar as estruturas envolvidas nessas relações. Para tal, volto a analisar a imagem apresentada: A mulher da figura 1 é um modelo a ser seguido pelas outras mulheres. Ela transparece higiene, sorri e faz a escolha correta de absorvente para não correr o risco de tornar a sua menstruação percetível (o que a Intimus chama de “acidente”), nem mesmo com o uso de roupa branca. 

Fica subentendido que a pessoa que se depara com o anúncio deve interiorizar e sentir o medo de se parecer com o “tipo de mulher” (o tipo que representa perigo para a ordem estabelecida, já que não se preocupa em orientar-se de acordo com os padrões estabelecidos) desleixada que expõe o seu corpo ao risco de “acidentes” durante o período menstrual. Uma vez que a marca anuncia que há um dever, por parte do sujeito feminino, de eliminar um acontecimento fatídico em relação ao seu sangue menstrual, ela espera que esse público simplesmente tenha uma reação semelhante ao pensamento “eu não quero ser esse tipo de mulher”.


O meu intuito não é usar este anúncio como uma forma de documentação fiel da era vivenciada na época da sua publicação, no entanto, a sua integração numa revista de mulheres e jovens adultas que provavelmente estariam a começar a compreender e conhecer o seu corpo e sexualidade (o que engloba o comportamento face aos ciclos menstruais) não parece obra do acaso. Torna-se assim possível falar de um dispositivo de controlo sobre a sexualidade das mulheres, em que as imagens podem funcionar como peças nessa engrenagem. 

“A publicidade não inventa coisas; o seu discurso, as suas representações, estão sempre relacionadas com o conhecimento que circula na sociedade. As suas imagens trazem sempre signos, significantes e significados que nos são familiares” (SABAT, 2001, p. 12). Podemos concluir que as diferentes formas de discurso são introduzidas em diferentes fases do crescimento do sujeito, para que este crie uma bagagem a ser aproveitada de acordo com os interesses das estruturas de poder. 


Como mulher, quero acreditar e considero possível que neste sistema quebrado e neste “mundo ao contrário” em que vivemos, possamos ocupar os nossos corpos sem sentimentos de culpa, tabus e vergonha – essa atitude é potencializadora de energia criativa, amor-próprio e até de saúde — como a menstruação. Afinal, existe muita arbitrariedade à volta deste assunto que é natural. É portanto mutável e aceita novas formas de ser encarado.





STRÖMQUIST, Liv. A origem do mundo. Uma história cultural da vagina ou a vulva vs. o patriarcado. 1. ed. São Paulo: Quadrinhos na Cia, 2018. 


SABAT, Ruth. Pedagogia cultural, gênero e sexualidade. Revista Estudos Feministas, Florianópolis, v. 9, n. 1, p. 9-21, jan. 2001. 



Nr de Aluno: 8388