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quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Marcas de uma crença

  Cresci em ambiente religioso, como é comum em grande parte das famílias brasileiras, aprendi a temer a deus e a todas as entidades maliciosas que a ele se relacionam, fui à igreja todos os fins de semana, fui a retiros religiosos e passei bastante tempo com todos os outros jovens evangélicos, não foi por escolha própria mas era o que parecia correto para uma criança que tinha de obedecer à mãe. Desde pequeno este temor ao mundo e ao pecado foi nutrido em mim, o diabo estava presente a toda hora, conspirava contra mim e contra a minha família, o povo cristão é o mais ''afetado'', pois quem não conhece a palavra de deus não tem a necessidade de ser atentado.
  Eventualmente o interesse na igreja foi-se desvanecendo, a minha mãe trabalhava fora, logo tinha dificuldade em manter esse controlo, eu e as minhas irmãs percebemos que não podiamos ser obrigados a visitar o culto e eventualmente deixamos de ir. A certeza nessa palavra manteve-se durante uns anos, apenas no meu primeiro ano de filosofia na escola é que fui encorajado a pensar por mim mesmo, questionar o que acredito e a razão por trás dessas crenças. Mesmo não vendo sentido no que acreditava, recusei-me a excluir todos os aspetos da doutrina, talvez por esperança de que se um dia fosse julgado, aquela réstia de crença me pudesse levar à salvação.
  Hoje, como adulto, prefiro não confrontar o que acredito, mesmo que a minha mãe insista que eu volte à igreja, com a contínua preocupação na minha salvação, prefiro abstrair-me do assunto, no entanto, diariamente encontro marcas dessas crenças passadas, existe este medo ''racional'', um medo de algo em que eu não acredito, algo que posso racionalizar e mesmo assim ser afetado, isto leva-me a ficar horas acordado, apavorado pela possibilidade de haver alguma presença ao fundo do meu quarto.
  Nos tempos em que vivemos de pânico generalizado, lido com esta parte cristã da família, estórias surreais de templos e anti-cristos, assuntos que descredibilizo facilmente, mesmo que inconscientemente me continuem a afetar a saúde mental. 

quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Responsabilidade em ter um filho

  Ter um filho não concede a aptidão para ser-se pai. Isto é, qualquer pessoa pode pôr um filho no mundo, a espécie depende disso, somos muitas vezes encorajados a tal, a ideia de criar um ser humano, educa-lo, vê-lo crescer, é maravilhosa, no entanto nem toda gente tem a capacidade, condição, inteligência e maturidade para tal.
  Os pais são essenciais na criação, os pais no caso entende-se por figura familiar, plural ou singular, não necessariamente os progenitores. Estes, responsáveis por uma educação não formal, transmitem conhecimentos e valores, uma base emotiva para uma criança que eventualmente terá de se inserir em sociedade. Todas as ações destes pais importam, todas transmitem algo ao filho, desde a maneira como erram, à forma como reajem e admitem esses erros. 
  Dificilmente alguém tem a sorte de ter uma educação perfeita, os pais, que um dia já foram filhos, tiveram de ser educados por alguém, muito ou pouco apto para essa tarefa. Os filhos, que um dia poderão vir a ser pais, aprendem com este exemplo de educação, que podendo estar cheio de lacunas, inicia um ciclo, um histórico de cicatrizes passados de geração a geração.
  E que condições são estas? A maturidade e inteligência emocional dos pais, a maneira como escolhem dialogar ou evitar tópicos, a educação formal, a possibilidade destes pais recorrerem a violência por acharem que esta impõe respeito, etc. Não esquecendo também as condições socioeconómicas, a condição financeira, os ideais que lhes foram incutidos em determinada época, o ambiente familiar. Todas estas circunstâncias podem acertar ou falhar na criação de um ser, na minha opinião, apto para educar um filho. 
  Olhando para a minha experiência, consigo perceber como a educação da minha mãe teve falhas, consigo perceber o porquê de ter tido a educação que tive, como a minha personalidade e ideais foram moldados não só pelas falhas da minha educação, mas pelo exercício de introspeção que me permite ver essas falhas. Acredito que muitos pais não devam ser pais, que uma criança saudável precise de um bom acompanhamento, cheio de compreensão, atenção, razão e tempo, porém, também acredito que mesmo alguém que venha de um ambiente defeituoso, tem a possibilidade de ultrapassar essas marcas emocionais, a possibilidade de quebrar esse ciclo, oferecendo ao filho a educação que não pôde ter.