segunda-feira, 21 de dezembro de 2020

O silêncio

  

 

Durante a pandemia tive, como acredito que todos tivemos, momentos em que me apetecia ocupar os ouvidos com algo, mas também tive momentos em que me apetecia estar em silêncio absoluto ora, para me distanciar do mundo, ora porque já estava farto de tudo o que envolvia som e só queria um descanso. Como tenho 4 irmãos mais novos em casa, torna-se difícil obter momentos silenciosos e, isso, levou-me a pensar o que seria estar numa sala completamente silenciosa. O que pensaria nessa sala? O que será a sensação de não ouvir nada? Qual seria a minha reação a isso? Foram algumas das questões que me surgiram e pus-me a pesquisar se realmente existia algum local assim e para minha surpresa existe.

Com alguma facilidade encontrei a sala mais silenciosa do mundo com -20,6 decibéis, para um termo de comparação, um sussurro tem cerca de 30 decibéis e a respiração 10 decibéis. Situa-se na sede da Microsoft em Washington e é uma câmara anecoica, ou seja, uma sala projetada para conter reflexões, tanto de ondas sonoras como eletromagnéticas. Esta sala serve, principalmente para o teste de novos produtos da Microsoft, mas, no entanto, algumas pessoas já caíram na tentação de passar algum tempo neste espaço único.

Vários relatos, tanto de pessoas que trabalham nesta estrutura, tanto de pessoas que já lá estiveram, indicam-nos que ao suster a respiração é possível ouvir o batimento cardíaco e o próprio sangue a fluir nas veias.

Apesar de inicialmente achar que este local seria o local ideal para quando tenho o desejo de desligar de tudo, após ler as experiências das pessoas que lá estiveram a minha opinião mudou. Uma das explicações possíveis para o desconforto do silêncio absoluto é estarmos habituados a todos os sons produzirem um pequeno eco ao nosso redor e nesta câmara só há sons mortos. O recorde de uma pessoa dentro desta sala é de apenas 45 minutos, começando a dar tonturas para a maioria das pessoas apenas passados 30 minutos. Acho que me fico pelo silêncio da madrugada quando toda a gente já está a dormir.

Cola Wars

    A Coca-Cola e a Pepsi foram criadas e vendidas para serem um "medicamento mágico" mas tornaram-se mundialmente conhecidas graças à mútua capacidade de se publicitarem e ao desejo de se tornarem o refrigerante mais vendido do mundo.  

    A Coca-Cola foi o principal refrigerante dos Estados Unidos da América aquando da implementação da Lei Seca até ao início da denominada "Cola Wars", nome dado ao confronto publicitário entre ambas as marcas de refrigerantes: a Coca-Cola e a Pepsi.  Esta “guerra” teve o seu período mais ativo a partir do final dos anos 70 e pelo decorrer dos anos 80, porém, esta começou anos antes, após a II Guerra Mundial, com o surgimento da televisão e dos novos media. A Pepsi começou a utilizar estes meios de comunicação como plataforma estratégica para alcançar e apelar às gerações mais novas. A Coca Cola percebeu que se perdesse a geração nova, perderia a batalha mercantil no futuro. Assim sendo, lançou um dos seus mais famosos e icónicos anúncios: "Hilltop". Neste anúncio, de 1971, a Coca Cola juntou jovens de diferentes etnias e culturas para cantarem acerca de um mundo de amor e harmonia com uma garrafa da marca Coca-Cola na mão, apelando aos ideias hippie que tiveram o seu apogeu anos antes. 

    O ponto de viragem na luta entre as duas "Colas" deu-se em 1975 com a campanha "The Pepsi Challenge". A Pepsi decidiu pôr os norte-americanos à prova para descobrir qual era a bebida com o melhor sabor. O teste consistia em apresentar dois copos sem rótulo, um com Pepsi e outro com Coca Cola e, no fim, o indivíduo teria de decidir qual a melhor. A grande maioria apontou para o copo com refrigerante de marca Pepsi. A campanha foi transmitida através de anúncios televisivos e chegou a estar também presente nas ruas. Foi um sucesso tão grande que fez com que a Pepsi superasse pela primeira vez a Coca Cola em número de vendas. Em 1985, perante a queda de percentagem de vendas no mercado em comparação com a rival, a Coca Cola decidiu alterar a fórmula para tornar o sabor mais semelhante ao da Pepsi. Esta ação gerou uma revolta no seio dos fãs mais leais da bebida, originou vários protestos por todo o país e foi notícia durante três meses. Esta mudança foi descrita por alguns indivíduos interrogados como "é como se um membro da minha família tivesse morrido". 

    A Coca-Cola, perante os acontecimentos, decidiu reverter a decisão. O retornar à fórmula original catapultou as vendas o que permitiu com que a marca se estabilizasse como a maior vendedora de refrigerantes do mundo. Outras ações, menos impactantes, utilizaram grandes artistas da época como Michael Jackson ou concretizaram, até, uma corrida ao espaço, no ano de 1985, que terminou sem vencedor, uma vez que ambas as marcas romperam a atmosfera ao mesmo tempo, com 4 refrigerantes cada uma, a bordo do shuttle espacial Challenger.  

    Hoje em dia a competição entre as duas marcas está mais amenizada, mas é inegável que as iniciativas publicitárias de ambas as partes contribuíram, de forma fundamental, para as tornar, não só, nas maiores vendedoras de refrigerantes do mundo, mas também ícones da cultura pop reconhecidas mundialmente.


O Dominante e o Submisso

 

Já dizia o maravilhoso Oscar Wild, tudo tem a ver com sexo, menos o sexo! O sexo é uma relação de poder que acontece entre dois principais polos, o positivo e o negativo, o permitido e o proibido, o intenso e o calmo, essencialmente o dominante e o submisso. Isto acontece, por norma, de forma natural e espontânea, sendo que sexo e sexualidade são coisas completamente distintas. Sexo é como ter fome, sede ou sono, uma necessidade básica digamos. Enquanto a sexualidade qualifica o que é de natureza sexual, logo, cultural. É aqui que as coisas ficam interessantes!

A complexidade desta “parada sexual” que é a sexualidade humana mexe com o nosso ser de forma total, contudo subtil. O mundo dos relacionamentos (sejam eles duradouros ou não) torna-se um verdadeiro campo de batalha, em que se planeiam as operações de guerra necessárias para chegar ao satisfazer dos impulsos naturais. Até porque o sexo não é senão o culminar desses impulsos e o “cessar fogo” da guerra. A bandeira branca é levantada e os corpos entregam-se em êxtase ao prazer que lhes é tão natural como saciar a cede com um copo de água num dia quente de verão.

A questão da dominação e submissão é a parte mais mental e, por vezes inconsciente, desta complicada componente sexual humana. Para esta relação de desigualdade de poder não é preciso sequer toque físico. No campo de batalha de que falava a pouco as forças presentes têm a perfeita noção se estão numa posição dominante ou não (porque neste caso não se fala de perder ou ganhar) sendo que, essa posição dominante pode mudar consoante o decorrer da batalha de sedução. Este conjunto de comportamentos, costumes e rituais que envolvem a submissão de uma pessoa a outra transmitem claramente que o sexo resulta de uma luta baseada no poder. Portanto…. Oscar Wild, onde quer que estejas, tinhas razão!

“Não se nasce mulher, torna-se mulher “

O papel da mulher no mundo, a nível social, histórico e pessoal, é um tema que tem sido muito estudado e abordado por diversos pensadores ao longo dos tempos. A luta entre machismo e feminismo, a luta pelos direitos iguais, pela liberdade, independência e imposição da mulher face ao homem tem-se tornado cada vez mais forte e a própria mentalidade da mulher vai ficando mais ampla em relação a si própria com o passar dos tempos.

Apesar das diferentes culturas que existem no mundo, e dos diferentes papeis que a mulher desempenha nas mesmas, podemos considerar que em grande parte destas, a mulher era vista como “o outro “como diria Simon Beauvoir. A mulher teria sido feita para e a serviço do Homem, apenas se definindo em relação a ele. Não era independente ou livre, não tinha opção de escolha.

 Quando falamos de atitudes machistas, é preciso salientar que as mesmas não são exclusivas dos Homens situação que me deixa inconformada porque a própria mentalidade da mulher estava desenhada para aceitar estas condições. Ao longo dos tempos tem feito parte da História e da cultura passada de geração em geração, a ideia de que a mulher deveria de ser submissa ao homem, algo que era incutido desde o berço. A mulher crescia a aprender como servir o Homem, como realizar as lides domésticas, como cuidar dos filhos, como se tornar num próprio objeto sexual. E até certo ponto não o contestava, “Eis por que nelas a mulher não encontra motivo para uma afirmação ativa de sua existência: ela suporta passivamente seu destino biológico. Os trabalho domésticos a que está votada, porque só eles são conciliáveis com os encargos da maternidade, encerram.na na repetição e na imanência “( Simon Beauvoir , p.83 ) era a sua realidade, e segundo a sua cultura, o que estaria certo, sendo que maior parte das vezes a própria religião defendia essa perspetiva. Temos o exemplo da Bíblia, grande guia da religião portuguesa, onde a mulher não é criada ao mesmo tempo que o homem, primeiro Deus cria o homem e só depois a mulher a partir de uma costela de Adão, apenas para matar a sua solidão. O facto de crescerem com essas crenças, levou a que a própria mulher desenvolvesse um pensamento machista. Se pensarmos nas pessoas mais velhas que ainda nos rodeiam e que cresceram com este pensamento, assistimos não só nos homens, mas nas próprias mulheres uma certa repulsa pela aquela que não cozinha para o marido, pela que foi trabalhar enquanto que o homem ficou a cuidar dos filhos, pela que não constitui família etc. As mentalidades foram de tal forma implementadas na sua cabeça que elas próprias se condenavam ao serviço do Homem e vêm-se como seres inferiores.

            Hoje em dia, apesar de ainda haver uma grande discrepância em diversas culturas entre homens e mulheres, esta conseguiu, através de muito esforço, lutar pelos seus direitos e ter a possibilidade de escolher o próprio rumo na sua vida, já não é do Homem, mas sim de si mesma. É ás lutadoras dos diretos da mulher dos tempos de opressão da mesma que podemos agradecer hoje em dia crescer a pensar em nós próprias como um individuo dono de si mesmo, capaz de estudar, trabalhar e seguir o seu próprio sonho não como seres inferiores e meras escravas ao serviço do homem. Hoje em dia vivemos numa sociedade mais consciente e começamos a olhar-nos como iguais.

            Na realidade o homem e a mulher sempre andaram de mãos dadas e dependeram um do outro. A própria reprodutibilidade da espécie não se daria sem a existência de ambos. O pecado deu-se pela discrepância de importância que certas culturas colocaram entre ambos. Não é mentira que eles diferem em diversos aspetos que podem levar a pensar na existência de uma certa desigualdade, no entanto não deixam de possuir o seu valores e capacidades que os tornam humanos de igual para igual.

            Este texto procura salientar a importância do reconhecimento, não da parte do homem, mas sim da própria mulher em relação ao seu valor e á sua identidade individual. É no momento em que a mulher se deixa de ver como um ser inferior e serviçal e se passa a ver como ser capaz e singular, que a sua luta pela liberdade ganha voz, e ela própria se passa a reconhecer como um individuo capaz de ambicionar qualquer sonho e de partilhar as oportunidades de igual forma na sociedade pela sua capacidade individual e não pela barreira virtual homem/ mulher.

 

Bibliografia: Beauvoir, Simon (2015) O segundo sexo, Edição portuguesa, Quetzal Editores

 

 

Palavras para quê?

     Eu não sabia sobre o que é que seria esta publicação. Em boa verdade, eu nunca sei exatamente sobre o que é que irei escrever antes de começar. Hoje li um pequeno texto de Clarice Lispector, publicado no Jornal do Brasil de 1968, chamado "Como é que se escreve?", que fala precisamente disso. Diz ela: "Quando não estou escrevendo, eu simplesmente não sei como se escreve" e diz Foucault, em As Palavras E As Coisas : "A linguagem tem em si mesma seu princípio interior de proliferação." E digo eu, de uma vez por todas: vou também escrever sobre o que se faz quando se escreve. Não que o saiba, não que tenha o mínimo conhecimento sobre o assunto. Não que queira que me levem a sério, senhores, oh não, tudo menos isso. Vim aqui apenas com a intenção de conversar. Comigo mesma? Não tanto. Com a madrugada? Em parte. Com o que penso? Estamos perto. Ah! Com as palavras, lá está. Há que as ter em conta, enumerar as suas cores e formatos, os sabores que nos deixam na boca quando as pronunciamos na hora errada, ou as brisas que nos correm pela face quando as deixamos esvoaçar num estendal feito pelo tempo que passamos com alguém especial. São tantas, todas amigas, cheias de si! Assim que começarmos a senti-las a amontoarem-se-nos por detrás dos olhos, nas pontas dos dedos nervosos, no fundo da carne que sente o mundo inteiro, está na hora do papel. Sim, convém que haja papel, para que se entorne a tinta em demasia, se suje a secretária branca e se amaldiçoe as horas tardias das emoções mais cruas e repentinas. Sim, é preciso começar. Zás! E faz-se sem sequer darmos por isso. Costumava achar que quando escrevia assistia a uma valsa mais ou menos caótica das palavras dançarinas no salão escorregadio da minha mente. Não é que tenha vindo a discordar radicalmente, mas já não vejo valsa em lugar nenhum, nem salão límpido e convidativo. Ninguém está cá para bailar, não há ritmos a respeitar nem troca de pares e de ideias. Há somente movimento constante, frenético, imperceptível. Atropelamentos, bofetadas, violências de boa educação. Com licença, deixe-me passar, olhe que eu cheguei primeiro. Não chegou coisa nenhuma, que eu estava aqui à espera desde ontem à noite, pensa que eu sou parva ou quê? Deixe-se estar quieta, que a menina não tem qualquer interesse. Sabes lá tu o que é que tem interesse, só ela sabe sobre o que é que vai escrever! Não, minhas queridas, nem ela o sabe, nem ela o quer entender. Como se vê, aliás, como testemunha o leitor agora mesmo. Escrever não é mais do que ouvir o que se pensa e remexer nisso até deixar de ser o que era. Ou antes, até sê-lo mais do que nunca. Escrever não é mais do que calar o que se ouve, ficar de olhos cerrados e fechar as mãos com a força que é precisa para que a caneta rebente e manche a pele com tinta que não sai. Escrever não é mais do que ter coisas para dizer e não as olhar nos olhos, não as chorar nas mãos, não as sentir no peito. Escrever é ficar dormente do corpo inteiro por se sentir o tamanho dos dias e das pessoas e das coisas todas, todas, todas. Escrever faz-se quando não se quer ir dormir, quando não se quer esperar, quando não se quer estar. Aquele que escreve não se conhece melhor a si mesmo, nem aos outros, nem à paisagem que vê da janela do quarto, nem ao seu gato, nem ao seu amante, nem ao seu desconhecido. Mas conhece as palavras. E dá-se bem com elas, quando é preciso. Escrever não é nada que eu saiba fazer e não é nada que a Clarice Lispector saiba fazer, porque não é nada que se faça. É algo que se quer e que se pode ter, de vez em quando. É algo que nos acontece.

                                                                         Um adeus, Avô.

    Boa noite a algo anónimo. Perdi o meu tabaco e repito tudo isto. Hoje é dia de apatia sem tabaco. Mas agora vou conviver com a minha amiga de cara apagada, uma memória de uma ferida de um passado recôndito. 

    O tempo bate ritmada e matematicamente na alma e na mente e distorce o meu pensamento e leva todo o sentimento que imagino ou penso sentir. Ele vai-se embora e tudo o que eu sou ele leva e não traz. 

    O desespero apodera-se da minha mente impotente; da mente, pois eu não o sinto com o coração, mas sim com a mente e grito com o espírito que não reconheço nada: nem eu, nem o mundo, nem o meu corpo, nem a si mesmo. E tudo continua a passar à minha volta, e eu aqui plácido e monótono de espírito. Tudo o que se pensa ou imagina já foi imaginado ou criado, eu crio o meu mundo de chamas, vulcões, tempestades e mares irados dentro de mim mesmo e ele não me destrói, só me corrói e não me restringe a nada mas só sobre ele me permite escrever, e, contente e irado, eu escrevo enquanto tudo se desmaterializa e desaparece para dar lugar ao nada infinito, que não existe para além da fronteira de mim…

    Caro falecido, escrevo-te do vácuo emocional no qual eu estou perdido. Vejo ao longe um adeus do futuro. As letras queimam… mas se já não te tenho, apenas queimam o leitor; é uma chama violeta e violenta assaz feia e de intensidade mordaz o que me consumia até ter deixado de te ter. Se eu estou bem? Tu, só tu sabes. Transparece no meu olhar frio, vazio, enigmático, apático a minha tristeza? Mas não, estou simplesmente com raiva… de algo… de tudo… de nada… até de mim mesmo. Pois… com isto já não sei a quem endereçar esta carta. Talvez ao nada que me corrói e pode ser que ele me abandone. Com os amores crescem também os ódios e sem ti, o fiel da balança, só sinto ódios incomensuráveis. Com eles distorce-se a minha mente… ou o que dela sobra… já nem sei se sou uma mente ou um pensamento.

    Escrevo como se a mão não fosse minha, a tinta escapa-me da caneta sem que eu queira, as palavras escondem-se na minha alma como se nunca quisessem ser encontradas, a folha em labaredas desaparece, e por sua vez do meu pensamento, os dedos fluem como uma nascente, as palavras tornam-se ilegíveis e as frases inexoráveis, os sentimentos correm e para a folha escorrem… Deixo de ver… Deixo de sentir. O tempo e o espaço deixam de existir… A realidade… qual realidade? Sim, pois, qual delas eu não sei. O mundo não existe, só eu e os meus pensamentos.

domingo, 20 de dezembro de 2020

 

O Chiaro-scuro do Aqui e do Ali

 

Por vezes na tempestade que me envolve que é a mente rápida que redemoinha por divagações vagamente alguma vez lembradas, se encontram portas; Portas metafisicas e etéricas que quando abertas e transpostas levam a uma multiplicidade de outras portas que por pensamentos velozes levam a conclusões , a respostas e perguntas que vieram doutras respostas, por um processos que chamo caminhar pela mente. Milhares e milhares de portas depois encontro-me noutras… um mestre não nos mostra o caminho, mostra onde está e como la chegar… não te mostra que porta escolher.

O sentido da vida… qual é o sentido da vida… qual não é o sentido da vida?

 

Sentado entre antecâmeras a minha mão escreve em duplicado

 Em mim o caminho errático

 que a caneta leva me leva a cavalo

por portas que eu conheceria

apenas em tempestades nevoeiradas

Sinto-me como as estrelas

Que reluzem em cantos

Do universo perdidas por entre

O nada, o buraco negro, o planeta

E os meteoros

Olhando por portas

Vejo muralhas inertes e profundas

 Que abrigam fontes profundas

Da sabedoria do universo espontânea

Que nasce em mim.

 

Oh como sois bela; e belas

Também as palavras que escreves

E feias as pessoas deste mundo

Nas feias paginas que uso

 

Por passagens interminavelmente

Não planeadas eu persigo apressadamente

O sentido de escrever que foge por mim

Deslizando pela tinta

E pelo papel … para fora deste caderno.

 

Vivendo cada segundo

Num suspense extasiante

Que me leva a loucura por momentos

 

Por momentos estou perdido

Nas infamosas eternas e etéreas intempéries

Em que o relâmpago que traz com ele o silencio

Sepulcral e ensurdecedor da tinta

 

Momentos de luz pintados na tela

De nada cegantes e atordoantes

Que me perdoam mas ficam gravados

Na minha mente

Palavras roubadas

A fontes angustiadas

Sem ser convidado

Roubo-as sem querer saber

E volto à fonte para lá beber

Sem que esquecer que convidado não vou ser

 

 

E os dias passam-se, vão-se passando. Passam-me sempre com um surrealismo, vivacidade e lucidez intemporais que eu pinto no momento atravessando outra porta e a longo desse tempo minha emudece e nos meus lábios pousam levemente todas as perguntas e respostas do universo.

 

Desta porta vejo todos os mecanismo do universo… as engrenagem giram e giram e voltam sempre ao presente.

 

Tenho as horas no pulso

A noção do tempo no cérebro

Mas o momento no coração

A velocidade é rápida

Sente a pulsação

Sente o pulso

Isto já e habito

Volta atraz

Relê

Pensa

Sente a distância

Sente a proximidade

Não há constância

Corta a velocidade

Pelo menos a metade

Volta atrás

Relê

pensa

Afinal a constância da velocidade

É ditada por mim ou por quem lê?

Não é ditada mas sim exclamada

Volta atrás

Lê em voz alta

Pensa

 

A pulsação volta mas não…

Não é momento de descanso

Quem ditou a velocidade

Foi alguém mas não a metade

Volta atrás

Rele

Pensa

Sente a liberdade no teu coração

 

A porta a que te encontras defronte dir-te-á algo sobre ti.

 

Como sentes que é a tua mente quando sou que a guio? Usas a minha voz? Usas a  de um indigente como eu? Exclamada ou interrogatória? Suave ou bela, ou ambos? Provoca-te? Chateia-te? Encanta-te? Leva numa viagem? Ou nada disso? Ou ainda mais? Parece um passeio… uma tempestade… uma discoteca abarrotada? Uma viagem aborrecida? Ou conhecer alguém pela primeira vez? Às vezes sentes o livro a gritar… ou outras vezes a sussurrar, talvez fosse como uma conversa numa tarde tardia ao sol mas isso é agora… há de ser de um café e cigarro ritualístico matinal ou numa noite sem sono e aborrecido. Outras vezes serão de uma tarde chuvosa. Não o direi mas seria o que sentirás o que eu escrevi ou a tua interpretação ou ate da tua meta-apreciação ou até da tua experiencia subjectiva do momento

 

De portal em portal viajo em folhas e palavras  que não sei o que são ou sei de todo, mas a certeza tenho embora que não seja eu um desses solipsos mas também não sei se parecem um suplicio ou ate algo que se lê desairadamente com gosto de quem preferia estar a dormir ou de quem vai numa viagem chata ou como quem se acaba de apaixonar ou de quem ganha ódio niilista e absurdista pela vida e vai para as aulas existencialistas ou de quando alguém nos lê em voz alta e deixamos de nos querer ver entretidos por outras coisas ou quando ganho rancor à leitura e ganho fome pela palavra que vem. Mas eu não sei declamar portanto não declamo, mas que se declame como quem tem amor pela música por alguém com ainda mais amor pelo sentimento e pela letra e pela corda, página, esquecimento e na cor preta da folha um passear deslumbrado e excitado como quem vê rosas labirinticamente plantadas ao sol guiando a saída, sentindo a sua fragrância remexendo no livro. O cachimbo que detias em ti transmuta-se em ouro e perplexo tu sorris e choras de felicidade de reunires-te com a tua própria alma.

 

O demónio escuta tudo

Até persegue o mudo

Espanta a morte

Mata o que se acha com sorte

 

O vilão retorna

De manhã dorme de madorna

O vilão já torna

 

Sonho que acordado

Caminho desnudado

E faço ainda algum recado

A minha alma já só tem um bocado

Desisto e o fumo mata-me a saudade

Bebo e bebo e fumo e fumo

Descontrolado resumo

Que sumo no meu turno

Volto atrás e exclamo

Que sou mais alto a exclamar

Apercebo-me enquanto vejo o espelho a quebrar

 

Tenho dois corações e apenas um esta acordado o outro está sem pulso, vejo agora que tenho três olhos e por um vejo mais alem que os outros dois juntos e vejo que na verdade tudo tem sempre a mesma característica… vibra.

Maria-rapaz

Chamaram-me muitas vezes Maria-rapaz quando era criança, nunca membros da família, que me lembre, apenas colegas e adultos de fora.

Pensava pouco no porquê e não levava a mal, porque não o dizem com mal… penso eu. Por vezes pensava se era da roupa, por causa dos calções ou algo assim, mas a maioria das vezes associava a ter mais amigos rapazes do que raparigas. De um modo geral sempre me dei melhor com rapazes. Não me faz sentir insegura, os tipos de conversas são outros, basicamente, é mais confortável.

Muitas vezes sentia que estava a perder algo por não ter uma grande amizade feminina como aquelas que aparecem várias vezes representadas nos filmes e séries, mas quando tentava só sentia desconforto. Nos últimos tempos conheci mais raparigas e neste momento considero que estou o mais perto do que alguma vez estive dessas amizades que cobiçava e, não sei se, estranhamente ou não, estas apenas se começaram a formar quando me comecei a tornar mais feminina, a gostar de vestidos, de roupas etc.

Muita gente confunde o ser feminina com o ser mulher. Tal como o ser masculino com o ser homem. Para mim são coisas independentes.

Ser feminina consiste nas características mais associadas ao género feminino pela sociedade, mas se pensarmos bem é como uma personalidade: tem várias características e comportamentos. Qualquer um a pode ter, ou partes dela. Ser masculino a mesma coisa. São como lápis de cor! Cada um faz o seu estojo com os lápis de que mais gosta.

Agora que penso, nunca mais ouvi alguém a chamar a alguém Maria-rapaz e quando ouvia, nunca era para descrever adultos ou adolescentes, sempre para crianças.

Talvez tenha deixado de ouvir porque não convivo com crianças regularmente, ou se calhar caiu mesmo em desuso. Seja o que for, faz-me feliz, era uma afirmação desnecessária que não trazia absolutamente nada a ninguém. Simplesmente chama à atenção para características da rapariga em questão que não têm nada de mal, mas se assim é, porquê referi-las?

Há muito a tendência de colocar as pessoas em pacotes. Sou mulher sou feminina, sou homem sou masculino. Mas não. Posso ser feminina ou masculina isso não faz de mim nem homem nem mulher e vice-versa. Por ser uma rapariga que se dá mais com rapazes não sou masculina, mas também não sou feminina.

Eu construo-me. Eu sou eu. Eu escolho os meus lápis de cor. Parece que nascemos logo com obrigações, somos empurrados para cumprir estas regras para cabermos nas conceções dos outros do que devemos ser, quando na verdade, a nossa única obrigação enquanto humanos é simplesmente ser.

Encontrei-te?


Há uns meses atrás, percebi que as imagens que mais me interessavam eram imagens em que, de certa forma, “encontrava” elementos que me recordavam de alguém que me tinha sido algo. 

Acabei por chegar à conclusão que não “encontrava” estes elementos, mas que forçava a criação de ligações entre pessoas com quem tinha uma conexão emocional, com imagens de outras, com quem nunca tinha tido qualquer tipo de relação. Mais provavelmente por evitar o encontro da imagem da sua essência.

Nessa altura escrevi a seguinte frase: "Não será mais fácil encontrar nas imagens, partes/vestígios das pessoas, do que encontrá- la por todo, só para que a finalidade desta nos certifique de novo a Morte deste ser? Esta ignorância, este contentamento com pouco acaba por nos causar menos sofrimento."

Aconteceu que na semana passada, olhei para uma fotografia da minha bisavó. Nunca a conheci pessoalmente, mas quanto mais olhava para a fotografia, mais sentia que realmente a tinha conhecido. A imagem que estava à minha frente coincidia perfeitamente com a que tinha criado, através das palavras que outros tinham usado para descrevê-la. 

Vivemos mais do que nunca num mundo dependente da imagem, e fui só mais uma vítima disto. Sem esta fotografia, as palavras só em si não me certificavam nada, não tinham qualquer importância. Sem esta fotografia não tinha encontrado a essência da minha bisavó.

Foi então, que comecei a pensar nesta questão da essência. Se antes, evitava o seu encontro, em relação a entes queridos, como podia, agora, encontrá-la em relação a alguém com quem nunca tinha tido qualquer tipo de contacto?

Será que realmente conhecia alguma destas pessoas? Na realidade, é impossível conhecer alguém no seu todo, conheço só a parte que este me dá a conhecer. 

Acredito que, de certa forma, podemos viver experiências vividas por outros, e que é desta forma que conheço a minha bisavó, conheço-a através do conhecimento de outros e do que estes mesmos escolheram partilhar comigo. 

A essência não passa então, de uma “base” construída do conhecimento que eu tenho de alguém. Esta essência é minha, pertence-me, no sentido que a construo e a imponho a alguém, influenciada pela minha perceção, mas sempre baseada no que este “alguém” escolheu revelar de si mesmo a mim. 

Penso que foi mais fácil “encontrar” a minha bisavó, pois quando se trata da imagem de um ser com quem tenho uma ligação emocional, tenho sempre a sensação de que este está separado de si mesmo, nunca coincide. Embora continue, mais do que nunca, a acreditar que será por evitar o seu encontro, não consigo parar de sentir que encontrei mesmo a minha bisavó, apesar de toda a limitação do meu conhecimento sobre esta. 

sábado, 19 de dezembro de 2020

Sexualidade, poder e género

   


Num dos seus mais recentes textos, Foucault diz que o sujeito foi sempre o tema mais abrangente de toda a sua pesquisa e de todo o seu estudo. Em “O Sujeito e o Poder” (FOUCAULT, 1995), declara que o seu objetivo era criar uma narrativa que expressasse as diferentes formas como o ser humano foi-se tornando sujeito na cultura. Dessa forma, ofereceu três formas de objetivação:


1. Um modo onde está presente um regime de discurso, que captura o sujeito em modos de investigação — onde o mesmo se torna alvo da ciência, economia ou mesmo da história natural.


2. Um modo que está relacionado a práticas divisoras, onde o sujeito é dividido no seu interior em relação aos outros, e como essas práticas o objetivam e dividem (como louco ou são, doente ou sadio. Este modo leva a um terceiro —


3. Para usar as formas de resistência contra as diferentes formas de poder. Seria como reconhecer o campo de forças que forma, por exemplo, determinado dispositivo na sociedade.


Por um dispositivo contar com inúmeras forças mutáveis e instáveis e pela sua confrontação ser inevitavelmente tensa, devido aos efeitos de resistência que ela cria, torna incerta a estabilidade de um dispositivo e produz a necessidade de rearticulações constantes na sua configuração gerando assim fissuras no estados de dominação que tal dispositivo gera (Weinmann, 2006). Podemos afirmar que esta nova perspetiva de Foucault é representada na mudança do foco da análise da sexualidade trazido pelo mesmo em “A vontade se saber” para um estudo e pesquisa de uma relação com o próprio, mediantes as quais os sujeitos modernos constroem a experiência de si próprios como sujeitos de sexualidade. Esse sujeito submerso no poder que busca capturá-lo procura encontrar um escape que só pode ser encontrado dentro desse mesmo poder. 


A sociedade é formada por espaços variados onde as relações podem ser disciplinares, formalistas, normalizadoras e de controlo. Na entrevista A ética do cuidado de si como prática de liberdade de Foucalt (2010:267)  diz que a libertação abre um campo para novas relações de poder que devem ser controladas por práticas de liberdade. Estabelecem-se assim relações de poder que resultam em formas de resistência. No caso, o poder não pode ser entendido como negativo bem como a resistência como uma tentativa de libertação ao poder. Não é certo nem linear que seja contra o poder que começam as lutas mas sim contra algum efeito produzido por esse mesmo poder e contra algum estado de dominação provocado por ele. Dessa forma, só existe poder porque existe resistência a ele. De outra forma seria apenas uma questão de obediência. 


Porem não é um caso de causa/efeito: Esta resistência de que falo não é uma substância. Ela não é anterior ao poder que ela enfrenta. Ela é coextensiva a ele e absolutamente contemporânea”(Foucault, 1979: 241)

Com efeito, o acto de exercer poder sobre, só é possível a partir de um jogo de provocação em que ambas as partes (poder/resistência) contribuem.

    

Alterar a verdade do sexo ou da sexualidade é uma política de existência que leva a uma quebra na naturalização do género e nas dualidades e binarismos que sustentam práticas divisórias determinando espaços e maneiras de ser específicas na formação de subjetividades. A abstenção da causalidade do sexo, da sexualidade e do desenvolvimento psicossexual possibilita a criação de outras formas de agir e pensar, que constroem resistência perante processos de medicalização da conduta das mulheres, das crianças e dos prazeres em geral.


Com as contribuições de Foucalt no tema da sexualidade tornou-se possível discutir  este tema de uma forma mais rica e abrangente e inúmeras possibilidades ficaram nas mãos dos que se interessam por estas questões. Desde o dispositivo de sexualidade até à sua discussão sobre a constituição do sujeito enquanto prática de cuidado de si torna a obra deste autor uma referência para aqueles que querem e se propõe a pensar a sexualidade fora dos padrões normativos que ainda marcam o pensamento e as práticas contemporâneas de análise a nível do género e da sexualidade. No que diz respeito ao dispositivo da sexualidade na constituição dos modos de existência, em especial, por meio dos atravessamentos de género e sexualidade, é possível afirmar,  como Foucault (1995: 10) que Talvez, o objetivo hoje em dia não seja descobrir o que somos, mas recusar o que somos. Temos que imaginar e construir o que poderíamos ser para nos livrarmos deste “duplo constrangimento” político, que é a simultânea individualização e totalização própria às estruturas do poder moderno.




FOUCAULT, Michel. O sujeito e o poder. In: Dreyfus, H. L. &Rabinow, P. Michel Foucault: uma trajetória filosófica: para além do estruturalismo e da hermenêutica,1995.


FOUCAULT, Michel.História da sexualidade. Vol. I: A vontade de saber.


WEINMANN, A.Dispositivo: um solo para a subjetividade. In: Psicologia & Sociedade.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Mulheres com bigode: Género e Imperialismo


Com a contínua demonização do Islão e do Médio Oriente como territórios uniformemente "homofóbicos" e conservadores, é importante recordarmos o papel do imperialismo europeu no estabelecimento da heteronormatividade (a ideia de que a heterossexualidade é o padrão e a orientação sexual preferida) em muitas culturas não-europeias. Legados históricos, locais de não-conformidade de género e sexualidade queer foram apagados para serem "validados” como "civilizados" pelas normas ocidentais e padrões de beleza. Este é o caso do Irão.

Najmabadi, historiadora de Harvard, examina o arquivo do início do Irão Qajair (1785-1925) revelando como a beleza era largamente indiferenciada por género. Foram retratados "homens" e "mulheres" com características faciais e corporais semelhantes. Aos olhos contemporâneos, “os bigodes das mulheres do Qajair faziam-nas parecer homens e tornavam-nas feias” (NAJMABADI, 2005, p.232). No entanto, no seu próprio tempo, o bigode era um sinal acarinhado da beleza feminina.


Taj al-Saltaneh, princesa da dinastia Qajair (também título da imagem), foi uma ativista feminista. 

De um modo geral, a literatura islâmica pré-moderna é, em grande parte, considerada insignificante para o amor. Ghazal - uma forma de poética persa - foi um espaço prolífico para a articulação do ''homoerotismo masculino''. Ao contrário das tradições filosóficas ocidentais que mantinham a ideia da passividade sexual feminina, a doutrina islâmica baseava-se na assunção de uma sexualidade feminina ativa. As práticas sexuais não eram entendidas como fixas numa orientação ou numa identidade, pelo que as pessoas se envolviam numa grande variedade de atos íntimos.

Quando os europeus começaram a viajar para o Irão e a escrever diários baseados nas suas observações, descartaram o Irão como antiquado, pelos homens "efeminados" e desprovidos de barba, degenerado as práticas do mesmo sexo. Em resposta a esta vergonha cultural, começou a ocorrer um processo de “heterossexualização” da sociedade iraniana, instalando o género como binário. Um forte legado de expressão queer foi destruído a fim de tornar novos parentescos e normas de género legíveis para os europeus como "modernos".

O fulcro para isto era a feminização da beleza. Anteriormente, símbolos sem género, tais como anjos, tornaram-se retratados como femininos. Os retratos foram tornados mais diferenciados em termos de género. Os homens iranianos foram pressionados a distinguir os limites da "homosocialidade" e da homossexualidade, pelo que as mulheres se tornaram no único objeto de desejo socialmente aceite para homens. Sob este novo binário de género ocidental, o desejo do "mesmo sexo" tornou-se feminizado e irreconciliável com a masculinidade. “O amado masculino [outrora adorado], agora feminizado, tornou-se sujeito a ridicularização” (NAJMABADI, p.60).












Bauer, J. (1985) ‘Sexuality and the Moral “Construction” of Women in an Islamic Society’ Anthropological Quarterly 58(3):120–129.

Engineer, A. (1996) The Rights of Women in Islam, New York:St Martins Press.

Foucault, M. (1976) The History of Sexuality: Volume 1. London: Penguin Books.

Iranian Studies, Vol. 34, No. 1/4, Qajar Art and Society (2001), pp. 89-102

Najmabadi, A. (2005). Women with Mustaches and Men without Beards: Gender and Sexual Anxieties of Iranian Modernity (First ed.). University of California Press.

Tavakoli-Targhi, M. (2001). Refashioning Iran: Orientalism, Occidentalism and Historiography (St Antony’s Series) (2001st ed.). Palgrave Macmillan.